Chanel e Dior - O começo e o agora

Por: @BelaHachi

É verdade que a moda e o feminismo não têm uma relação muito evidente - e dizer o contrário seria um erro. O feminismo é um movimento social que busca os direitos das mulheres e a igualdade de gênero, enquanto a moda está inserida no sistema capitalista, cujo objetivo é gerar lucros e se promover às custas da insegurança das pessoas com produtos a preços exorbitantes. Mas calma, a moda também não é de todo mal, á que ela pode servir como meio de expressão, como forma de espalhar conceitos e mensagens, abrir portas para mudar a visão das pessoas quanto à algo e dar uma forcinha sociocultural.


Nesses casos, o feminismo e a moda podem ter andado de mãos dadas - ou como eu gosto de chamar, uma relação entre tapas e beijos, já que as vestimentas já aprisionaram muito as mulheres, mas também as libertaram.


Por isso, a conexão de beleza que farei hoje é de dois ícones do mundo das roupas, dois nomes que você provavelmente já ouviu falar: Chanel e Dior - O começo e o atual.


Vamos começar com Coco Chanel, responsável por um dos nomes mais famosos e uma das marcas mais bem-sucedidas dessa indústria. Mas além disso, a estilista se destacou com peças que abordavam o feminismo - mesmo sem saber, porque a estilista em si não era lá uma grande feminista.


Coco, nascida Gabrielle, é responsável por trazer peças masculinas aos guarda-roupas femininos da época. Em um tempo onde não sair com uma fruteira no topo da cabeça significava que você estava por fora, a estilista trouxe acessório mais simples, leves, com muito menos adornos, o que acabou facilitando a vida das mulheres.


Depois, ao ter contato com seu amante, Etienne Balsan, proprietário de um haras de cavalos de corrida, e assim ser chamada para cavalgar, sua mente não entendia o porquê ela deveria montar de saia e não simplesmente colocar uma calça, então, assim o fez.


A calça, o paletó, os vestidos de comprimento mais curtos - mostrando os tornozelos pela primeira vez - as cinturas livres sem os espartilhos, de pouco em pouco e sem nem perceber, Chanel foi libertando as mulheres - fisicamente e mentalmente - de padrões e sofrências que a sociedade julgava “necessários”.


A mistura de pérolas falsas com verdadeiras foi responsável pela quebra do paradigma de que quem usava bijuterias não era nobre, além disso trouxe o preto - que antes só era utilizado por empregados - para a alta-costura.


O cabelo curto que a tantos chocou e influenciou

- entenda mais os motivos no Extras da Redação - e a pele bronzeada, que antes era mal vista por relembrar operários pobres que trabalhavam debaixo do sol, também foram conceitos mudados pela francesa.


Hoje, a marca perdeu um pouco do seu “je ne sais quoi” que vinha com as questões revolucionárias que a idealizadora trouxe, tornando-se mais um símbolo de conservadorismo e classicismo, ainda apresentando peças idealizadas por Coco - como os terninhos de tweed e o incrível tailleur, peça na época equivalente ao terno masculino de dois botões.


Alguns vêm e ficam, outras se vão, e alguns aparecem de última hora - mas antes tarde do que nunca! Este é o caso da Dior, marca criada em 1946 que, até então, não tinha em seu portfólio atitudes muito feministas.


Arrisco dizer que até pelo contrário, a marca foi responsável pelo New Look, um modelo pós Segunda Guerra Mundial que pegou todos os elementos desconstruídos por Chanel e pela própria escassez que a guerra trouxe, como a cintura marcada, o excesso de tecido e o padrões de mulher delicada e frágil, e trouxe de volta.


Após a morte de Christian Dior em 1957, Yves Saint Laurent - que ainda não tinha sua própria marca - foi escolhido para a direção da marca e trouxe algumas peças que não eram tão tradicionais quanto se esperava da Dior, como jaquetas de couro e vestidos curtos, mas logo Saint Laurent foi convocado ao exército e saiu da marca.


Pulando um pouco para o passado recente, depois de quase 70 anos de marca, Maria Grazia Chiuri é contratada como Diretora e Estilista da Maison Dior, a primeira mulher a ter este cargo na casa - o que por si já significou muito.


Mas não foi só a conquista de cargo que fez com que a Dior se tornasse a minha escolha para este Conexões de Beleza. Foi a mudança implantada por Maria que, na minha opinião, significou muito e ajudou muito a abrir os olhos daqueles que seguiam a marca e poderiam ter mentes mais conservadoras e fechadas.


Através de coleções com inspirações em movimentos feministas, homenagens às Teddy Girls - mulheres da tribo Teddy Boys, uma das primeiras subculturas inglesa, e presença de frases icônicas como “We should all be feminists” - “todos deveriam ser feministas” em inglês - que a responsável pela marca atualizou um conceito presente à décadas e trouxe para a Dior uma nova referência, que não só a cintura marcada, salto alto e saia rodada do “New Look”. O que me faz perguntar se, a nova era feminista da Dior, é de certa maneira um “novo look” atual.