Entre a projeção e o adiamento constante

Por: Ivete Santos

É comum, para a mudança de ano, fazermos planos. Quando já passou o réveillon, sob sentimento de culpa, projeta-se para o mês seguinte. Sob o irônico caráter de urgência, reprograma-se com o paradoxo psicolinguístico: "Esperarei pela segunda-feira para  começar".

A fórmula é a mesma, seja uma nova dieta, uma mudança, uma nova página, a ginástica, o curso, a postura em relação a coisas e pessoas...seja o que for. É como se tivéssemos esperando um marco zero temporal. Mas não seria a realização que determinaria um nova etapa, a estaca zero, o 180º?  Se pensarmos logicamente, é a ação que determina a cronologia particular e a associação psicológica que se deposita nela: haja vista a data de aniversário, seja lá em que dia for, determina o calendário e o cronômetro individuais. Esperar uma demarcação coletiva pode impulsionar decisões do indivíduo num grupo, embora, se houver um prazer momentâneo ou duradouro em procrastinar, o "Faço amanhã!"  não indica a determinação, é apenas a eternização do desejo ambíguo de um "depois não precisarei executar".
Não há mal em não concretizar os projetos quando a não realização é escolha ou aceitação. O maior problema, segundo a minha experiência, é a energia mental e o sentimento entre a projeção e o adiamento constante, alimento da frustração. Energia mal utilizada.
A minha, neste momento, não é a angústia da página em branco, mas da página cheia, o “Catar feijão" de João Cabral de Melo Neto; para mim, a seleção, o critério de qualidade e de efeito. E com isso não estou

defendendo as bandeiras do "perfeccionismo" amplamente divulgado como característica positiva e da  "ansiedade" como sentimento destrutivo.
Defino sob minha perspectiva: não é o do perfeccionismo, é o da minimização de defeitos, consciência e busca para atingir os objetivos; no meu caso, os discursivos.

Já a ansiedade, ao contrário do que defendem, pode ser positiva se levar à ações, é mais salutar com estratégias e consequências possíveis levantadas. Se ela levar à atividade em caminhada ao suposto objetivo, é positiva. Se soterrar ou se sobrecarregar imobilizado pelos pensamentos esgotantes: mortal.
Entre o "carpe diem" e o "quem espera sempre alcança" existe a relevância das alternativas, respostas aos questionamentos: E se eu morrer hoje? E se eu morrer daqui a inúmeras décadas.
Vinha adiando a publicação dessa coluna (ops!), mas minha meta,é DAQUI PARA FRENTE!

 

 

IVETE IRENE DOS SANTOS. Fez a escolha pela carreira aos 13 anos de idade, ingressando no CEFAM (Centro de Formação Específica e Aperfeiçoamento do Magistério). É mestre em Comunicação e Letras (UPM), instituição onde atualmente leciona; Foi doutoranda em Linguística Aplicada (PUC-SP); É professora universitária e pesquisadora nos temas Língua, Literatura, Leitura, Comunicação, Mídias e Tecnologias. Atua no magistério desde 2000, da Educação Infantil à pós-graduação e escreve em periódicos regionais da região sul de São Paulo, em cujos textos divulgam-se reflexões sobre educação, literatura e atualidades. Mantém um blog com suas publicações: www.textosdaivete.blogspot.com.br