O que é ser um homem contemponâneo? Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior, Gonzaguinha, já nos respondia isso em 1983, venha saber mais!

Por: @Mirianeszabot

Nos idos de 1983, chegava ao público brasileiro, pela gravadora EMI-Odeon, o álbum "Alô Alô Brasil", décimo primeiro da carreira de Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior, o Gonzaguinha. Nesse disco estavam duas músicas que viriam a se tornar grandes sucessos na carreira do cantor, compositor e violonista, eram a faixa 5 do lado A, intitulada "Um Homem Também Chora (Guerreiro Menino)" e, no lado B, estava a faixa “Feliz”. Aqui falarei sobre a primeira delas, música que apareceria novamente na discografia póstuma de Gonzaguinha, em bonito LP/CD ao vivo, lançado pela Som Livre em 1993, chamado “Cavaleiro Solitário”, esse recheado de sucessos.

Quando recebi o convite para estrear uma Coluna sobre música, aqui na Revista Redação de Beleza, informaram-me que o tema da edição na qual sairia o meu primeiro texto seria “O que é ser um homem moderno e contemporâneo? Os desafios do homem do século XXI.”. Imediatamente lembrei-me da música "Um Homem Também Chora (Guerreiro Menino)", do moleque Gonzaguinha, compositor a quem dediquei meu mais recente CD "Mirianês Zabot canta Gonzaguinha - Pegou um Sonho e Partiu" e evidentemente, alguns anos da minha vida em um mergulho intenso, carinhoso e encantador em sua obra.

Antes de falar da música em questão, falarei de seu autor. É marca registrada de Gonzaguinha nunca ficar apenas na superfície em suas composições. Ele tinha uma visão bastante ampla e profunda sobre os temas que abordava. E como isso é bonito! Como é necessário! Multifacetado, nos deixou um repertório que vai do lírico ao sarcástico e do romântico ao engajado. Compositor, cujas palavras, têm o peculiar poder de jogar luz sobre as nossas vidas nos fazendo refletir. Por vezes, até nos vemos retratados em alguma de suas letras. É por esses motivos que a música de Gonzaguinha é eterna.

Gonzaguinha foi um compositor que notoriamente entendeu a alma feminina. Ainda assim, soube traduzir também a alma masculina, de uma forma desprendida de quais quer costumes machistas da época. Percebendo e, acima de tudo, aceitando que o homem também chora e é sensível, que luta e trava grandes batalhas sim, mas por ser simplesmente humano, precisa e merece um descanso para respirar e sentir.

O compositor retrata um homem que recarrega suas forças na delicadeza e nas palavras amorosas. Cuja força não está necessariamente na contundência e no “falar grosso”. Mostra que o homem não precisa fazer “coisas de homem”, se isso não lhe for verdadeiro. Abre o caminho para pensarmos que a masculinidade pode ser expressada de maneira diferente por cada indivíduo e mostra que não há um

único jeito de agir para ser considerado homem.

Essa letra propõe desconstruir padrões que foram plantados desde a infância e que, geração após geração, foram reforçados por pais, professores, amigos e sociedade como um todo, que ditam o que é “coisa masculina” e o que é “coisa feminina”. Para permitir o surgimento de um homem que tem empatia, visto que conseguiu aceitar-se como é verdadeiramente, libertando-se de ideias preestabelecidos. Um homem que percebe o quanto é opressivo, para todo mundo, ser aquilo que a sociedade machista exige de homens e mulheres.

Mostra que um homem pode ter medo, dúvidas e ansiedades, pode amar, sofrer, errar e até chorar. Porque os guerreiros são no fundo meninos, de almas sensíveis e corações amorosos. E são essas as suas armas mais poderosas.

Atente-se ao fato de que a música é de 1983!! Pois é, como vemos na letra abaixo, Gonzaguinha estava à frente de seu tempo.

"Um homem também chora, menina morena
Também deseja colo, palavras amenas
Precisa de carinho, precisa de ternura
Precisa de um abraço da própria candura
Guerreiros são pessoas tão fortes, tão frágeis
Guerreiros são meninos no fundo do peito
Precisam de um descanso, precisam de um remanso
Precisam de um sono que os torne refeitos
É triste ver esse homem, guerreiro, menino
Com a barra de seu tempo por sobre seus ombros
Eu vejo que ele berra, eu vejo que ele sangra
A dor que tem no peito, pois ama e ama
O homem se humilha se castram seus sonho
Seu sonho é sua vida e vida é o trabalho
E sem o seu trabalho, o homem não tem honra
E sem a sua honra, se morre, se mata
Não dá pra ser feliz, não dá pra ser feliz
Não dá pra ser feliz, não dá pra ser feliz"
Um Homem Também Chora (Guerreiro Menino)
Gonzaguinha

Essa mudança no homem, que hoje vem se consolidando, nada mais é do que uma continuidade de ideias plantadas há alguns anos. Sabemos que as grandes mudanças perpassam gerações, mas estamos no caminhar. Temos até a música como ferramenta para sensibilização e para inspirar uma transformação genuína para as novas gerações, que não viram o semear dessas ideias, mas que sentem a necessidade da mudança de paradigmas.

Com alegria no coração, percebo que as mensagens de encantamento e delicadeza de Gonzaguinha seguem ecoando. Quer seja na voz apaixonada e urgente do próprio compositor, quer seja nas vozes de inúmeros intérpretes como eu, que encontraram identificação nas palavras de amor, de coragem, de fé e justiça, no olhar lúcido porém sonhador, na preocupação como bem-estar das pessoas e na paixão pela vida, expressas nas músicas de Gonzaguinha. Sua obra está eternizada nos corações dos apreciadores da boa música e naqueles que nutrem a esperança.