É Natal que eles querem? Eu tenho!

Muito além das versões em português para clássicos natalinos, existe uma igualmente bonita e vasta discografia recheada de músicas criadas originalmente por compositores brasileiros.

Por: @mirianeszabot

Muito além das versões em português para clássicos natalinos como "Bate o Sino (Jingle Bells)", "Noite Feliz" - originalmente escrita em alemão - e "Então é Natal" - música de John Lennon, imortalizada por aqui na voz de Simone - existe uma igualmente bonita e vasta discografia recheada de músicas criadas originalmente por compositores brasileiros. Portanto, parafraseando Jackson do Pandeiro e Severino Ramos, eu digo: “É Natal que eles querem? Eu tenho!”.
Na coluna "A música, o luzeiro e o tempo", dessa edição Especial de Natal da Revista Redação de Beleza, vou contar uma história natalina, que tem a música popular brasileira por protagonista.
Em 1932, um grande baiano conhecido como Assis Valente compôs a música mais importante do cancioneiro natalino brasileiro, chamada "Boas Festas", que no ano seguinte foi gravada e lançada por Carlos Galhardo, em 78 rpm pela gravadora Victor. A música questiona, não só a felicidade inerente à época de Natal, mas até a bondosa figura do Papai Noel.

“Anoiteceu, o sino gemeu
E a gente ficou feliz a rezar
Papai Noel, vê se você tem
A felicidade pra você me dar
Eu pensei que todo mundo
Fosse filho de Papai Noel
E assim felicidade
Eu pensei que fosse uma
Brincadeira de papel
Já faz tempo que eu pedi
Mas o meu Papai Noel não vem
Com certeza já morreu
Ou então felicidade
É brinquedo que não tem”
Boas Festas (Assis Valente)

No entanto, foi na voz de uma mulher, a carioca Madelou Assis, que chegou ao mercado brasileiro, em dezembro 1932 pela Columbia, o 78 rpm com a primeira gravação de uma música com tema natalino, intitulada “Papai Noel (Felicidade)” de Custódio Mesquita. A curiosidade sobre essa letra é que ela descreve um rapto. A personagem pede ao Papai Noel que devolva seu irmãozinho, levado embora por ele, no Natal anterior. Novamente temos um tema melancólico no Natal brasileiro.

“Papai Noel
Você que é tão bonzinho
E todos os anos me visita
E me traz um presentinho
Me faz um favor,
Não esqueça meu pedido
Saberei agradecer se for atendida
Você me traz uma coisa pequena
Que é maior ’ra quem perdeu,
Que mesmo pra quem achou
Você me traz por favor meu irmãozinho
Que ano passado você levou”
Papai Noel – Felicidade (Custódio Mesquita)

Já em 1974, em disco lançando pela Odeon, foi a vez do paulista Adoniram Barbosa usar toda sua inventividade, para na música “Véspera de Natal”, contar a história de um pai, que na noite de Natal, tenta trazer o lúcido à vida de sua tão necessitada família.

“Eu me lembro muito bem
Foi numa ‘véspa’ de Natal
Cheguei em casa encontrei minha nega zangada
A criançada chorando
Mesa vazia não tinha nada
Saí, fui comprar bala-mistura
Comprei também um pãozinho de mel
E cumprindo a minha jura
Me fantasiei de Papai Noel
Falei com a minha nega de lado
Eu vou subir no telhado
E descer a chaminé
Enquanto isso você
Pega a criançada e ensaia o ‘jingoubé’
Ai, meu Deus, que sacrifício
O orifício da chaminé era pequeno
Pra me tirar de lá,
Foi preciso chamar os bombeiro”
Véspera de Natal (Adoniran Barbosa)

Até Chico Buarque foi arrebatamento pelo Natal, lançando em 1967, um compacto - feito sob encomenda para os clientes de uma imobiliária - que trazia no lado A, a marcha “Tão Bom que Foi o Natal”, de sua autoria.

“Tão bom, tão bom, tão bom, tão bom
Tão bom que foi o Natal
Ah quem me dera fosse o ano inteiro igual
Olha a cidade que linda
Até parece deserta
A meninada dormindo
De janela aberta
Papai Noel completa toda coleção
Boneca, bicicleta, bola, bala e balão
Pra quem não tem seu tesouro
A vida é só uma esperança
E nada vale mais ouro que inda ser criança
Quem não vive de amor não vai viver sempre assim
Papai Noel planta flor onde não tem jardim
Papai Noel volta só
Papai Noel volta a pé
Papai Noel sem trenó
Pra casa sem chaminé
Em casa só sem criança
Ele vai ler o jornal”
Tão Bom que Foi o Natal (Chico Buarque)

A lista de importantes compositores brasileiros tocados pelo espírito natalino é grande em quantidade e qualidade, temos músicas como “Presente de Natal” de Alvarenga e Ranchinho, “Natal das Crianças” de Blecaute, “Natal Pobre” de Luiz Vieira, “Natal na Fazenda” de Altamiro Carrilho, “Cartão de Natal” de Zé Dantas e Luiz Gonzaga, “Natal dos Caboclos” de Paraguassu e Capitão Furtado, “25 de Dezembro” de Palmeira e Mario Zan, “Papai Noel Chorou” de Zé Paioça e Tonico e Tinoco, e muitas outras pérolas. Vale a audição! Para que essas canções nos inspirem e alimentem em nós o amor e a generosidade.
Desejo que o Natal nos traga luz, para que possamos ver a nós mesmos, e encantamento, para que possamos ver a vida e a todos com mais delicadeza e carinho. Boas Festas!

* Essa pesquisa discográfica foi realizada no rico acervo de LPs, livros, compactos e CDs de música brasileira, pertencentes ao acervo do Instituto Memória Brasil (Assis Ângelo), em São Paulo/SP. Para saber mais sobre o IMB: www.institutomemoriabrasil.com.br