Quanto mais consciência eu tenho, menos eu me calo

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Uma super entrevista com as seis mulheres incríveis - nossas cover girls - que compartilharam suas experiências com o movimento feminista e a importância deste em suas vidas!

Eu conseguia perceber no olhar de cada uma delas, o quão prontas elas estavam para falar sobre feminismo e o impacto deste em suas vidas e isso foi algo que me fez admirá-las ainda mais. 

Por: @BelaHachi

O Feminismo,  é o tema desta edição. Devo começar essa matéria falando o quão empolgada fiquei ao decidirmos por essa pauta e, ainda mais, quando selecionamos as mulheres que iriam representar todo esse movimento poderoso.


Seis mulheres, diferentes entre si, cada uma com uma profissão, uma origem, uma história de vida e experiências para partilhar. Seis incríveis seres humanos que aceitaram a proposta de olharem para si mesmas e refletirem sobre as passagens de suas vidas, as realidades vivenciadas por elas, cada uma do seu jeito, na sua época, na sua perspectiva.


Antes de começarmos a falar das histórias em si e do delicioso bate-papo que tivemos, eu acredito ser de extrema importância ressaltar que, todas as mulheres precisam do feminismo, algumas mais, outras menos. Certas mulheres precisam para serem ouvidas no trabalho, outras para,  ao menos, poderem trabalhar e, por aí vai. Uma luta não diminui a outra, porque juntas somos mais fortes.


Através dessa matéria espero dar um auxílio maior às vozes dessas seis, que estão na luta para dar um suporte à milhares de vozes.


Estávamos na Casa Miracolli, em São Paulo, a Equipe RB acompanhando tudo, os profissionais incríveis de makeup e hair, o diretor de casting, a queridíssima fotógrafa Millena Rosado, todos juntos em um dia de sol e muitas risadas. A energia fluía dentre as árvores do jardim que nós conversávamos e ríamos, compartilhando nossas experiências, desde as mais cômicas, até aquelas que pensávamos “é melhor rir do que chorar”.


Aos poucos, eu e a Editora de Beleza July fomos chamando cada uma das mulheres para uma conversa mais intimista em uma sala interna. O clima continuava amigável e agradável, mas uma chavinha tinha virado. Eu conseguia perceber no olhar de cada uma delas, o quão prontas elas estavam para falar sobre feminismo e o impacto deste em suas vidas e, como mulher antes de tudo, isso foi algo que me fez admirá-las ainda mais.

“Se eu me fechar na minha bolha, eu me torno tudo que eu não quero ser, como mulher e como ser humano”. 

A primeira que sentou comigo foi a apaixonante coach Bru Fioreti. Guerreira, do interior de São Paulo e decidida, desde pequena sabia o que queria. Assim como muitos do ramo jornalístico - e me incluo nisso - a paixão por leitura, o desejo da escrita foi o que a fez escolher sua profissão, a qual a levou para lugares que ela nunca imaginou - “literalmente” segundo ela.


Logo depois de terminar a faculdade, passou em um trainee do Estadão e veio para a capital, com a cara e a coragem - e o talento e a determinação também. Passando por jornais e revistas, até se tornar Redatora Chefe da Glamour. A Bru me contou que, no começo de sua carreira, achava que o jornalismo político era no que trabalharia, mas as coisas não acontecem sempre como achamos, certo?


Em 2016, ela fez um treinamento de coaching para escrever uma matéria e, no meio do caminho, acabou se encontrando mais do que esperava. Foi aí que, em 2017, ela decidiu deixar o ramo do jornalismo para trás e experimentar novas águas.


“Felicidade é uma busca, estamos sempre procurando”.Essa foi a resposta de Bruna, quando a questionei se essa sua nova carreira a fez sentir que encontrou o que estava faltando.


Com público majoritariamente feminino e colunista de carreiras para mulheres do UOL, a coach me explicou mais sobre a importância do feminismo em sua vida:


“Quando eu era mais nova, eu não achava que precisava de feminismo. Eu achava que feminismo já tinha sido ultrapassado. Eu precisei crescer, viver algumas coisas e me inserir nessa realidade para entender sua importância”.


Conforme sua vivência foi crescendo, seu interesse pelos estudos dessas áreas aumentaram. A necessidade de questionarmos sobre o que os conceitos culturais impõe em nós como mulheres, como membros da sociedade, se tornou algo presente na vida de Bru e a fez se encontrar feminista.


“Nós mulheres, dentro das nossas diferenças, merecemos direitos iguais. A igualdade é por direitos, é por espaço e, acima de tudo, por respeito”.


Ela também comentou sobre a necessidade de empatia, de entender e reconhecer os privilégios que temos e que muitos não tem, e por assim, dar voz e espaço à esses.


“A feminista está lá para representar todas as mulheres, especialmente aquelas que não percebem que necessitam dessa representação. Pois são essas que não conseguem ter essa quebra de realidade e contexto histórico que vivemos”.


Agora, falando do feminismo dentro da sua área profissional, chegamos na forte tendência que as mulheres têm de não se sentirem merecedoras - quanto mais ela sofreu, quanto mais dificuldades ela passou, maior chances de negar o seu mérito. Nessa hora que o coaching entra com força total, aliado ao feminismo para auxiliar na quebra desse padrão, propondo novas verdades e novos conceitos.


O primeiro passo vem do nosso comportamento no nosso ambiente, na não reprodução de preconceitos ou de piadas. E isso não significa ser “chata”, mas é importante para destruir o hábito que criamos de julgar que essas pequenas atitudes são normais, quando elas servem para cristalizar uma realidade equivocada e reforçar conceitos que estamos tentando quebrar.


“Se eu me fechar na minha bolha, eu me torno tudo que eu não quero ser, como mulher e como ser humano”.

Seguimos nossa jornada de entrevistas com uma mulher que tem muito a ensinar a todos, Renata Monteiro. Sua primeira escolha de profissão foi odontologia - que por conta da situação financeira de sua família na época, acabou não se concretizando -


foi a área administrativa de empresas que se tornou seu caminho.


A época era complicada, por volta de 1976, quando muito as mulheres chegavam a serem secretárias e olhe lá! Vale lembrar aqui que a década de 1980 foi muito importante para a inserção de mulheres no mercado de trabalho. Após trabalhar em como analista de produto em um banco, Re recordou de uma entrevista de emprego para analista de marketing:


“O elevador abriu e só tinha homem, eu pensei que não tinha nem espaço para mim e, antes de eu ir embora, entrou mais um monte de gente e eu tive que ficar”.


O processo foi longo e de marketing não tinha nada, a vaga era mais para vendas e ela logo se acostumou. O machismo se fazia presente, afinal ele sempre existiu. A perspectiva de que seria mais difícil para ela do que para os homens, a fez estudar mais e ver o feminismo como uma ferramenta para conseguir o respeito por quem ela é como pessoa.


Hoje, ela trabalha com crianças na Engineering for Kids, que tem uma proposta de preparar os jovens para profissões que vão surgir. Quando perguntada sobre a comparação entre sua vivência no mercado de trabalho em 1984 e agora, Re deixou claro que as coisas mudaram.


“Já aconteceram coisas de eu chegar para assinar contrato com cliente e o homem recusar, hoje não sofro mais nada do tipo. Eu não exijo nada, eu quero respeito, como qualquer profissional, o ser mulher nunca pode ser a linha de corte”.


Existe um peso muito grande nas palavras contra as mulheres: os xingamentos, as críticas, os julgamentos diários.


“O preconceito com o futuro é o mais perigoso de todos, você não evolui”

“Eu era feminista de atitude mas eu só me aprofundei no assunto nessa época. A equipe eram mulheres mais novas e que nasceram mais feministas, além do discurso da própria revista”.

A terceira a conversar comigo foi a encantadora e inteligentíssima Andrea Dantas. Formada em 1987 em jornalismo pela PUC, uma mulher de muita opinião e conhecimento, que já passou por veículos como Isto É, Veja, Estadão e Folha, cobrindo política, economia e, claro, passando pelo machismo - já que as redações eram formadas muito mais por homens e não eram segmentadas como “femininas”.


Ela também passou pela Folha e atuou com Joyce Pascowitch - uma feminista e tanto - que, mesmo não impondo o discurso feminista, serviu de escola para ela. Aos poucos, caminhando para um jornalismo feminino, Andrea entrou em contato com um segmento composto por mais mulheres.


Ao entrar na Marie Claire, sua visão sobre esse universo mudou:


“Eu era feminista de atitude mas eu só me aprofundei no assunto nessa época. A equipe eram mulheres mais novas e que nasceram mais feministas, além do discurso da própria revista”.


O contato a abriu para o conhecimento sobre o feminismo, assim como sua filha e sobrinha, que por terem certas questões já desbravadas, podem ir mais a fundo do conceito e questionar outros pontos da realidade.


Ao fazer o paralelo da “geração pré-selfie” - como ela mesmo se encaixa - com o momento atual, Andrea reconhece que muitas coisas mudaram, desde o modo de acesso à informação até questões feministas e de respeito à pessoas jovens - que foi um preconceito também sofrido por ela.


“Na nossa profissão, as conquistas estão sendo feitas”.

A quarta foi a fascinante Jô Souza, sabe aquele tipo de pessoa que você começa a conversar e não tem vontade de parar? Então, ela mesma! Nascida no interior da Bahia, em Alagoinhas, mas desde de pequena com uma grande vontade de morar fora, sair da caixa, fazer diferente do que a foi apresentado e sem aceitar rótulos que lhes eram impostos. Com espírito empreendedor, sempre se comunicando através das vestimentas e com um desejo de conhecer a grande São Paulo.


Motivada pela falta de recursos e o pouco consumo, sua criatividade floresceu cada vez mais através de suas próprias roupas.


Formada em Relações Públicas, ela foi fazendo em paralelo teatro e moda, até que a moda virou a carreira principal.


Nunca se viu casada, a idéia nunca lhe agradou muito. A Frida e Coco Chanel sempre foram inspirações e musas, para ir atrás de sua liberdade e da vontade de experimentar tudo.


“Eu venho de uma família feminista e feminina, você pode levantar bandeira e ser uma mulher vaidosa. Eu acho que eu destoo um pouco da minha geração e sou uma pessoa de espírito livre que tem relação com o feminismo”.


Jô também cita que o preconceito existe e a misoginia também, mas que é importante que nós pratiquemos enxergar o ser humano sem rótulos, sem divisões e fronteiras.


Ela também citou um filme que acha bárbaro e aborda a questão do feminismo e feminino: “A excêntrica família de Antônia” de 1995, dirigido por Marleen Gorris. Já viram? Gostam?


Sua vinda para SP também mostrou algumas ideias que a sociedade cria sobre mulheres, mas nada que a abalasse.


“Quando eu vim para São Paulo acharam estranho eu ter uma filha e não ser casada, mas eu só pensava que isso eram cabeças tão fechadas e tento não me colocar em posição de vítima”.

“Não podemos ficar esperando que as coisas aconteçam pelos outros, temos que mudar nossas atitudes. O mundo nunca vai ser perfeito, então a mudança tem que começar dentro da gente”

Depois, me sentei com Mariliz Pereira Jorge, uma grande inspiração para mim - como mulher e jornalista. Paranaense, mudou-se para a São Paulo ao terminar os estudos e morou durante 16 anos na capital. Em seguida, morou durante dois anos e meio no exterior na Austrália e, ao voltar para o Brasil, se instalou no Rio de Janeiro. A jornalista passou pelos maiores veículos de comunicação do país, sendo repórter da Folha de S. Paulo, Editora da Folha de S. Paulo, repórter da Veja, participou da criação da Women’s Health e escreveu para diversas revistas da Editora Abril.


Ela deixou a escrita para revistas de lado para embarcar na aventura de trabalhar na TV Globo, na concepção do “Encontro com a Fátima Bernardes” por dois anos e meio, até que foi convidada a ser colunista da Folha de S. Paulo, além de milhares de outras participações. A influência dos gostos de seus pais por música, revistas e livros a inspirou a se tornar jornalista. Aquelas assinaturas, páginas e letras foram seu entretenimento na cidade pequena em que vivia.


Mariliz foi criada por uma família feminista, mulheres que sempre tiveram sua independência e liberdade - ressaltando, claro, que estas enfrentaram muito machismo em suas épocas - mas devido à isso, sempre existiu em sua mente o conceito de que meninas e meninos não possuíam deveres e direitos diferenciados. Isso pode ter escondido um pouco a realidade do mundo para ela - já que, infelizmente, o mundo não pensa exatamente assim - o que a fez perceber o machismo ao ter medo de andar sozinha de noite, frequentar certos lugares e etc.


Por não viver essa realidade dentro de casa e não ter experienciado muitas ocasiões machistas no trabalho, a jornalista afirmou que não entendia toda a onda do feminismo quando ela teve contato com esta, mas que ao conhecer a realidade de outras mulheres, de outras realidades, de outras experiências e histórias, ela entende que sua jornada é positiva e exerce o feminismo de uma forma pró-ativa ao mostrar que as mulheres podem fazer, podem falar, podem exercer suas vontades e direitos.


E claro que eu tive que perguntar se ela sentiu diferença ao morar fora do país - 6 meses fazendo mochilão na Europa e 2 anos na Austrália - a qual ela respondeu que as sociedades são muito diferentes entre si, então que sim, existe uma diferença no tratamento. Mariliz contou que, ao morar com seu namorado australiano na época, ela percebia que as tarefas domésticas que os homens e as mulheres eram responsáveis por, eram muito similares, não existia aquela ideia de que por ser mulher ela teria certas obrigações.


“Não podemos ficar esperando que as coisas aconteçam pelos outros, temos que mudar nossas atitudes. O mundo nunca vai ser perfeito, então a mudança tem que começar dentro da gente”

Para fechar com chave de ouro, não poderia ser ninguém menos que a brilhante Renata Nascimento. Desde sempre trabalhando com assessoria de imprensa - lá no começo não era ligada à moda, trabalhou com empresas corporativas - e em 2002 começou na Alice Ferraz, referência na área de assessoria de moda. Depois de uma década, junto com sua irmã - que também trabalhava na Alice Ferraz - ela abriu sua própria empresa em um formato mais boutique, com menos clientes que recebem um atendimento bem personalizado e pessoal, dando início à VIVA.


A empresária conta que ser mulher nunca a fez se sentir menor, principalmente por trabalhar tanto com mulheres, com um mercado feminino, ela aprendeu a valorizar e apreciar as mulheres e suas características. Apesar de não ter vivido experiências que as demais viveram, ela deixa claro que enxerga o movimento e se solidariza com este.


Ver uma mulher com uma trajetória tão forte e inspiradora que conta como não sentiu o machismo em primeiro grau, me deu um certo respiro, como se me fizesse pensar “temos esperança, temos histórias para nos apoiarmos”.


Tendo as três sócias mulheres e mães, Renata contou que o ambiente corporativo se tornou mais humanizado, coisa que acredita que seria diferente em uma empresa majoritariamente masculina.


Ao falar de sua filha Gabi, a empresária deixou claro que “não existe legado maior do que ensinar que tudo que temos e conquistamos é fruto do que acreditamos e trabalhamos”. Com certeza, ter Renata de inspiração, uma mulher tão forte, trabalhadora e de alma pura, fará com que a pequena cresça se vendo capaz e empoderada.


“É importante ser solidária, mesmo que você não tenha vivido aquilo”.


Seis histórias, seis curtas conversas - curtas demais para mim, poderia passar horas com cada uma delas - que nos ensinam coisas diferentes e importantes.